“Cultivons notre jardin.”
Voltaire, Candide (1759)
“É preciso cultivar nosso jardim”. Meu jardim está dentro dos quatro muros da minha casa, entre meu estúdio e minha casa. Meu jardim é ali de onde espio por sobre o muro, o mundo, outras casas, outros jardins. Meu jardim privilegia as plantas que dão fruto.
Meu jardim não seria o que é não fossem os outros jardins. Pois as sementes trazidas pelos pássaros e pelo vento sempre trazem coisas surpreendentes. Então cabe a mim e cabe ao jardineiro escolher o que devemos eliminar, o que manter; o que deve prosperar, e o que se deve estancar aqui e já.
Meu jardim, como qualquer outro jardim, exige cuidado constante. Mas mesmo com todo o cuidado, ele não pode estar completamente sujeito à minha vontade. Pois são as estações que ditam as horas e os tempos. E estas não pertencem a nós. A nós cabe estar atento, cheirar a chuva no vento, espiar o movimento dos pássaros, quem canta, quem cala. Observar o secreto conluio do florescimento, murmurado por entre folhas e raízes.
Na minha casa vivo eu, e quem comigo vive. E é lá que correm as vozes do cotidiano. Mas no estúdio cessa tudo. No meu estúdio estou só eu. No meu estúdio todas as vozes se calam. O telefone não toca. Reina o silêncio.
Mas lá não estou sozinho. Pois é de lá, das janelas amplas e cheias de luz, que vejo o meu jardim, que entrevejo o jardim dos outros, alçando os olhos até as copas das altas árvores que ocultam as casas e emolduram um céu em constante transformação. É de lá que vejo o rolar das estações, o escoar do tempo, é de lá que aguardo fruto farto e semente abundante. No momento certo e preciso.
“Je sème un grain qui pourra produire un jour une moisson.”
“Eu semeio uma semente que um dia poderá produzir uma colheita.”
Voltaire, Tratado sobre a tolerância (1763)
Mauricio Piza
Espaço Arte, Cultura e Design
Rua Caconde, 234 – Jardim Paulista, São Paulo
Exposição individual, de 27 de setembro a 21 de outubro de 2025.


